quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A IMPORTÂNCIA DA AFETIVIDADE NO PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM

A IMPORTÂNCIA DA AFETIVIDADE NO PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM

Neiva Juçara Parizotto Marciano[1]

RESUMO: O tema Afetividade foi escolhido devido a sua importância, pois aborda a relação aluno-professor, sendo que esse vínculo afetivo deve ser estimulado diariamente, motivando o ato de aprender-ensinar. O objetivo foi mostrar que afetividade é uma importante alternativa para mudanças na aprendizagem. A metodologia esteve pautada por referências bibliográficas, observação direta em sala de aula e entrevistas que envolveram alunos e professores de 5ª a 8ª séries. A afetividade na escola, indiscutivelmente influencia muito na aprendizagem dos alunos. Ensinar e aprender são um processo de transformação humana que acontece de forma contínua, por isso o sucesso da aprendizagem está no modo como os alunos e professores se relacionam. Entre alunos e professores percebe-se que ainda há falta de um bom entrosamento, ocorrendo desrespeito, agressividade e até mesmo atos de violência, os quais estão se tornando comuns dentro da sala de aula, ou seja, espaço de aprendizagem que deveria ser de mútua acolhida. Infelizmente ainda existe uma concepção tradicional de alguns educadores que bitolam somente a parte cognitiva e a nossa realidade exige mudança nessa forma de ensinar.

PALAVRAS-CHAVE: afetividade – aprendizagem – aluno – professor.

INTRODUÇÃO

Em nossa realidade, onde não somente o pai é o provedor da família, mas também a mãe enfrenta jornadas de trabalho fora de casa, cria-se um impasse, no qual a afetividade muitas vezes deixa a desejar, já que o tempo destinado aos filhos é bastante limitado. Ressalta-se que a jornada de trabalho continua no lar e, consequentemente, o cansaço físico e a desmotivação.

A escola é um local onde a criança passa grande parte de seu tempo e, por isso, esse meio social deve proporcionar um ambiente agradável, que favoreça as descobertas e desenvolva a curiosidade. Para que isso aconteça o desenvolvimento cognitivo deve estar paralelo ao desenvolvimento afetivo.

O tema Afetividade foi escolhido devido a sua importância, pois aborda a relação aluno-professor, sendo que esse vínculo afetivo deve ser estimulado diariamente, motivando o ato de aprender-ensinar. Visa reconhecer que através dos laços afetivos entre educando e educador é possível promover uma aprendizagem significativa. Almeida (2009, p. 42) cita Wallon afirmando,

[...] atribui à emoção como os sentimentos e desejos, são manifestações da vida afetiva, um papel fundamental no processo de desenvolvimento humano. Entende-se por emoção as formas corporais de expressar o estado de espírito da pessoa, este estado afetivo pode ser penoso ou agradável.

A afetividade favorece o conhecimento intelectual, pois o desenvolvimento normal da inteligência só ocorre se há uma relação anterior normal. É a afetividade que constitui o alicerce sobre o qual se constrói o conhecimento racional. É possível observar na prática como as crianças com bloqueios afetivos apresentam também inibições intelectuais e as que possuem uma boa relação afetiva, têm seu desenvolvimento intelectual facilitado.

Através de pesquisas bibliográficas, observação direta em sala de aula e registros, intenciona-se aprofundar o conhecimento teórico-prático sobre o tema, objetivando uma prática pedagógica voltada à qualificação do ensino-aprendizagem.

O ALUNO E A INTERAÇÃO COM O AMBIENTE

O aluno deverá sentir-se seguro e acolhido por todos envolvidos no seu processo de aprendizagem e para isso é necessário que a família, comunidade e escola estejam sempre presentes e comprometidos com o mesmo objetivo, demonstrando afetividade para que ele se desenvolva quase que plenamente.

Diante de tantas informações, tecnologias e meios de comunicação o aluno não é mais o mesmo e o educador não pode ficar alheio a essa realidade e sim deve procurar atualizar-se cada vez mais e usar de novos recursos para atraí-lo.

Sabe-se que a família é a referência, a base para qualquer criança. Portanto os bons ou maus exemplos terão consequências na formação de conceitos. Muitos fatores podem envolver a criança e influenciar em sua vida, tornando difícil a sua adaptação em sala de aula. É a partir desse momento que o papel do professor fará diferença em seu comportamento, seu aprendizado e sua socialização.

O que afasta ou aproxima o ser humano de outro ou o aluno de seu professor é forma de relacionamento. As relações determinam a formação de seu caráter, reagindo de forma negativa ou positiva e consequentemente influenciando na aprendizagem. “Elogie o jovem antes de corrigi-lo ou criticá-lo. Diga o quanto ele é importante, antes de apontar-lhe o defeito. A consequência? Ele acolherá melhor suas observações e o amará para sempre”. (CURY, 2003, p. 95)

É possível afirmar que todo ser humano sente-se amado quando encontra no ambiente em que está: aconchego, afeto, aceitação e exemplos positivos. Ensinar é um ato de amor, por isso transmitir conhecimento deve estar sempre vinculado à afetividade. A aprendizagem é um processo em que ambos (aluno-professor) ensinam e aprendem.

Olhar o aluno com interesse e atenção faz com que desperte nele a graça do aprender ou quem sabe ter a infelicidade de intimidar sua inteligência. Conforme ALVES (2002), o olhar do professor tem o poder de fazer florescer ou murchar a inteligência do aluno, pois todo ser humano de olhar amedrontado, vazio, distraído ou perdido não aprende.

Buscar novas formas de ensinar, ter uma relação afetiva com os alunos é o caminho para o despertar de um novo tempo e mesmo que o educador tenha à sua disposição todos os recursos tecnológicos possíveis, estes jamais substituirão a relação de afetividade que norteia o processo de desenvolvimento cognitivo.

CONCEPÇAO DE WALLON SOBRE A AFETIVIDADE

A afetividade tem papel imprescindível no processo de desenvolvimento da personalidade da criança, que se manifesta primeiramente no comportamento e posteriormente na expressão.

O afetivo tem origem nas sensibilidades internas de interocepção (sensações provocadas pela tonicidade das vísceras) e de propriocepção (sensações derivadas da posição e tonicidade muscular). Essas sensações são responsáveis pela atividade generalizada do organismo que, junto com a resposta do outro (sensibilidade de exterocepção, isto é, sensibilidade aoque vem do exterior), vai se transformando em sinalizações afetivas cada vez mais específicas de medo, alegria, tranqüilidade, raiva, etc. Assim, estados emocionais (variações viscerais e musculares do tônus) vão se transformando em estados afetivos (comunicação de afetos, de sentimentos). (MOHANEY; ALMEIDA (Orgs.) et al, 2000, p. 15)

No entanto, “Na teoria Walloniana a afetividade é o ponto de partida do desenvolvimento humano”. (ALMEIDA, 2009, p. 44). Portanto, todo processo de educação significa também a constituição de um sujeito. A criança seja em casa ou na escola, em todo lugar está se constituindo como ser humano, através de suas experiências com outro, naquele lugar, naquele momento.

A construção do real acontece através de informações e desafios sobre as coisas do mundo, mas o aspecto afetivo nesta construção continua muito presente.

ENTREVISTAS: PROFESSORES E ALUNOS

Para Alves (2000, p. 17), “[...] difícil amar as disciplinas representadas por rostos e vozes que não queiram ser amados.” Observam-se na escola diferentes formas de relacionamento e nas respostas dos alunos e professores em relação à entrevista sobre afetividade, percebe-se que ambos querem e necessitam demonstrar e receber afeto.

É nesta troca que aprendem a desenvolver o conhecimento construindo uma aprendizagem com significado. “Professor ideal para mim é aquele que ensina e não desiste nunca. Além de professor ele pode ser um grande amigo.” (Aluna A, 7ª série). Para a Professora A (7ª e 8ª série), “A afetividade é muito importante. Antes de transmitir o conhecimento, precisamos amar o nosso aluno.

Alguns educadores responderam ter encontrado resistência por parte de alguns alunos, em relação à afetividade. Questionados sobre a receptividade dos alunos em termos afetivos. “A maioria é receptiva, alguns não estão acostumados a ter laços afetivos”. (Professora B, 5ª série).

A nossa realidade nos mostra que muitas crianças não tiveram carinho, amor de sua família, tornando-as insensíveis a sentimentos afetivos. “Não acho que deva existir laços afetivos entre professor e aluno, deve haver um laço de respeito. Não gosto de professores que querem se intrometer na vida do aluno.” (Aluna B, 7ª série).

Muitas vezes os educadores não sabem lidar com as emoções em sala de aula, tornam-se vulneráveis e incapazes de enfrentar determinadas situações, portanto o conhecimento é o suporte necessário para assegurar a administração das emoções em sala de aula.

O professor que se apropria de conhecimento sobre emoção, amplia as possibilidades de compreensão da realidade de seus alunos. Com referências teóricas os professores consequentemente saberão lidar melhor com o que é observado na sua sala de aula.

O DESAFIO E A AFETIVIDADE

Todo aluno tem sabedoria, brinca e compete de acordo com os conhecimentos e as capacidades que possui, por isso é necessário que o professor apresente atividades com e sem obstáculos que, com afeto o aluno poderá superá-las, desenvolvendo internamente critérios e crescerá à medida que vence desafios. Destaca-se então que: “A felicidade é um bem estar biopsicossocial, uma satisfação da alma.” (TIBA, 2002, p. 72). O aluno aprende pelo relacionamento afetivo que o professor estabelece com ele e também com o que presencia em seu ambiente. Portanto o exemplo faz parte da aprendizagem.Educar não é deixar a criança fazer só o que quer (buscar saciedade). Isso dá mais trabalho do que simplesmente cuidar porque equivale a incutir na criança critérios de valor. A criança é regida pela vontade de brincar, de fazer. A cada movimento está descobrindo coisas, num processo natural de aprendizagem. Junto entram valores. (TIBA, 2002, p. 131)

Toda criança precisa de desafios, mas deve ser direcionada e orientada com princípios e limites, assim ela se sentirá amada e segura.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As manifestações de afetividade exercem um papel fundamental no processo de desenvolvimento do ser humano. A relação entre afetividade, razão, emoção, aluno, professor e família no contexto da educação está inteiramente ligada ao desempenho escolar. Caso contrário se houver ausência de afetividade na família desse aluno os prejuízos serão enormes e mesmo que sejam corrigidos por uma ação pedagógica haverá dificuldade de aprendizagem.

Portanto, caberá ao professor querer, juntamente com a comunidade escolar, aplicar com determinação e persistência o objetivo de ensinar, alicerçado na afetividade e no respeito para formação de uma educação com qualidade.

Não se deve ficar indiferente e insensível ao apelo da comunidade escolar que anseia por uma sociedade justa e fraterna. Educadores e educandos crescerão como seres humanos íntegros, globalizados e capazes de serem inseridos em uma sociedade moderna, mas que precisa de muito afeto para sobreviver.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Ana Rita Silva. A emoção na sala de aula. 7ª ed. Campinas – São Paulo: Papirus, 2009.

ALVES, Rubem. Alegria de ensinar. São Paulo: Papirus, 2000.

ALVES, Rubem. Por uma educação romântica. 2. ed. São Paulo: Papirus, 2002.

CURY, Augusto. Pais Brilhantes Professores Fascinantes. 12. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.

MOHANEY, Abigail A.; ALMEIDA, Laurinda R. (orgs) et al. Henri Wallon: psicologia e educação. São Paulo: LOYOLA, 2000.

TIBA. Içami. Quem ama educa. São Paulo: Gente, 2002

[1] Licenciada em Pedagogia Habilitação em Administração Escolar – Faculdade de Letras e Educação (FALEV) – Vacaria/RS. Professora de Ensino Fundamental da Rede Municipal

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